O carro
vendia mais que cerveja em desfile de penta-campeão, até que uma
série de incêndios queimou sua imagem. Chegaram a criar a
Associação de Vítimas de Incêndio em Tipo (Avitipo), que
computou cerca de 100 casos de combustão espontânea. A Fiat foi
obrigada a fazer duas chamadas em 1996, para a troca da
mangueira da direcção hidráulica e da tubulação de combustível.
O fluido de direcção vazava e pingava no escape, dando origem ao
fogo.
Agora
vem a parte boa. O problema só afectava o 1.6 importado.
As outras versões estavam livres da sanha pirotécnica. Nem por
isso deixaram de se desvalorizar. E ainda bem, porque hoje você
compra, por exemplo, um 1.6 1996 pelo preço de um Palio EDX 1.0
do mesmo ano, levando de brinde mais motor, mais equipamentos e
mais espaço – aliás, o grande destaque do carro. De série,
direcção hidráulica, vidros e travas eléctricos, limpador
traseiro e regulação de altura do volante.
O melhor negócio é o 1.6 nacional, o queridinho dos compradores.
Mas também pode apostar no importado, tomando o cuidado de
verificar o número de chassis na Fiat (08007071000) ou passar
numa autorizada para conferir se o reparo foi feito. Evite os
SLX, que se mantêm nas lojas, pois são mais beberrões e nem
sempre estão bem cuidados.
Quem
gosta de acelerar vai se apaixonar pelo 16V. É um raro caso de
desportivo usado bem-visto pelos lojistas. Custa quase o mesmo
que o SLX, é mais completo – bancos Recaro, rodas de liga leve,
volante de couro, tudo de fábrica – e tem um motor de dar
inveja. No teste da QUATRO RODAS de Janeiro de 1995, cravou 100
km/h em 9,85 seg. e atingiu 206,7 km/h. Foi definido como
“feroz” e “uma macchina, digna de admiração”. Onde mais você
consegue isso a partir de 8400 reais?
Mas não
ponha a mão na carteira sem antes passar a lupa na tampa de
trás. Feita de plástico injectado, exige mão-de-obra
especializada. Muitas vezes, só trocando a peça inteira.
Se
estiver rachada ou quebrada, não vale a pena arriscar. A
manutenção está na média dos concorrentes, lembrando o que foi
publicado no desmonte do Tipo 1.6 em Março de 1996. “Quanto à
parte mecânica deste Fiat, não há de que reclamar (...). O
motor, apesar dos problemas com carbonização, jamais ameaçou
deixar-nos na mão. O câmbio, desmentindo a tradição negativa dos
Fiat, saiu-se bem. Os freios passaram apenas por desgastes
naturais e a suspensão (...) adaptou-se bem às difíceis
condições de nosso piso.”
Na
época, pesou contra o serviço autorizado, que trocou peças fora
de hora e reinstalou as que eram necessárias, jogando o preço
final lá em cima.
Até que,
por se tratar de um usado mais antigo, encontrar peças não é
tarefa das mais árduas. Apesar de raras no mercado paralelo, não
faltam nas concessionárias. Para quem não lembra, o Tipo
compartilha com o Tempra vários itens, como os de suspensão,
freio e motor – no caso dos 2.0.
Caso a
sorte sorria para você com um carro com airbag, não desperdice a
chance. O preço de tabela é o mesmo. Diferente do ar
condicionado, que custa de 500 a 1000 reais a mais.
Para
saber mais sobre a história e outros cuidados na hora da compra
desse carro, a dica é o site do Clube do Tipo (www.clubedotipo.com.br),
que também serviu como consultor para esta reportagem.
Outra versão dos acontecimentos
por Eng. Milton Vieira
Se fosse um problema de projecto, o recall mudaria o encaminhamento da mangueira da bomba hidráulica...
O problema era bem mais complicado. Primeiro o motor tinha que ser lavado com querosene ou outro tipo de solvente, que atacava a borracha ao ponto de fragilizá-la.
Depois, o usuário deveria ignorar o manual do usuário e ficar forçando o volante contra o batente (por exemplo, ao estacionar em vaga apertada), coisa que qq um que usa carro com DH sabe que não pode, mas o Tipo inaugurou um segmento de mercado não acostumado com este "luxo".
Por último, quando a pressão da bomba subia ao seu limite, por conta de ser forçada contra o batente, o mangueira hidráulica, já fragilizada, não aguentava e rompia, esguichando óleo sobre o colector de escapamento quente. O resto é história.
Pense agora, o Tipo, um carro fabricado há anos na Europa, exportado para inúmeros paises do mundo, e nunca havia apresentado este problema, começa a aparecer este problema só aqui. O que se imaginou primeiro? Algum problema eléctrico, má instalação de alguma coisa, e assim ia.
Sob pressão de fazer alguma coisa, a engª da Fiat já doida tentando descobrir o que acontecia, a engª italiana completamente perdida, pois não conseguiam "por as mãos" em nenhum carro não destruído para poder fazer uma análise mais completa.
O primeiro recall foi meio "no escuro" onde trocaram o tubo flexível da admissão do ar pela válvula thermac. Era de papelão e como ficava em local quente, deram este tiro no escuro, achando que o papelão podia estar pegando fogo. Trocaram por um de alumínio. Não resolveu.
Só quando puderam analisar um carro cujo incêndio foi apagado logo no início, descobriram a mangueira rompida. A fábrica analisou a mangueira e constatou a degradação da borracha e constatou o que estava acontecendo. Para a engª da itália, foi uma surpresa, pois lá (como em quase nenhum lugar do mundo) lava-se motor, principalmente com solventes.
A solução foi simples, trocar o flexível da DH por uma mangueira "made in Brazil" e já adaptada à realidade nacional. Meio que ovo de Colombo, todo mundo sabia a solução, mas só depois de descoberto o problema.
Tenho um conhecido da engenharia da Fiat e foi uma sacanagem como a turma ignorante da imprensa tratou o assunto na época, considerando isto como descaso da Fiat.
Claro que na medida que a Fiat era processada, a defesa era inevitável, e como não se sabia a causa do incêndio, algo inédito neste carro importado, com projecto e fabricação mais que maduros, a primeira coisa que vinha na cabeça era mesmo problemas criados por alguma instalação errada de algum acessório eléctrico.
Por último, como o Tipo vendia muito, chegou a ser o carro mais vendido no Brasil, não apenas o importado, mas o carro mais vendido, a concorrência ajudava, alimentando a imprensa ignorante com mais boatos.
Como disse, neste mesmo período a Autolatina teve mais probelmas de incêndios com seus carros do que o Tipo, mas, quem sabe disso??